Fio perdido, O: ensaios sobre a ficção moderna

    Sobre o livro: "Não há livro ali dentro" dizia, em 1869, um crítico sobre A educação sentimental. As ficções emblemáticas da modernidade literária

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    Marca: Martins Fontes - selo Martins
    Referência: 9788580633153

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    Sobre o livro:

    "Não há livro ali dentro" dizia, em 1869, um crítico sobre A educação sentimental. As ficções emblemáticas da modernidade literária destroem o que era o próprio princípio da ficção desde Aristóteles: o encadeamento de ações segundo a necessidade ou a verossimilhança. Mas essa mesma racionalidade causal, que se opunha à simples sucessão das coisas, exprimia ela mesma a excelência da forma de vida de uma categoria privilegiada de humanos. Recusando essa estrutura de racionalidade, a nova ficção era testemunho de uma mudança radical que subvertia a hierarquia das formas de vida. Mas ela também recusava um modelo da ação e uma imagem do pensamento. Através de Flaubert, Conrad, Virginia Woolf, Keats, Baudelaire e Büchner, este livro estuda as formas e paradoxos dessa revolução da escrita, que é também uma revolução no pensamento e coloca novamente em questão algumas interpretações da modernidade literária, como a reificação de Lukács, o efeito de real de Barthes ou a análise benjaminiana do "poeta lírico no apogeu do capitalismo".

    Sobre o autor:

    Jacques Rancière, nascido na Argélia em 1940, é um dos mais renomados filósofos da atualidade e autor de várias obras publicadas e reconhecidas mundialmente. Seu trabalho é voltado para as áreas de história, filosofia, estética e política. Atualmente, dá aulas na European Graduate School de Saas-Fee, na Suíça, e é professor emérito do departamento de filosofia na Universidade Paris VIII, onde lecionou de 1969 a 2000.

    Saiu na mídia:

    'O Fio Perdido', de Jacques Rancière, reúne textos do pensador francês sobre a literatura moderna

    Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

    27 Maio 2017 | 16h00

    O que une escritores como Gustave Flaubert, Joseph Conrad e Virginia Woolf? Talvez só mesmo um filósofo como o argelino Jacques Rancière, autor de uma biografia filosófica sobre o pedagogo Jean Joseph Jacotot (O Mestre Ignorante) possa fornecer uma resposta. Jacotot (1770-1840) ousou dizer não à autoridade dos mestres. Defendia que todo mundo pode ensinar (inclusive o que não sabe), tendo a igualdade como princípio e a emancipação da inteligência como método. Assim, ao se debruçar sobre a literatura moderna, Rancière tenta esquecer o que aprendeu sobre Flaubert, Conrad e Virginia Woolf para elaborar uma teoria própria em O Fio Perdido - Ensaios sobre a Ficção Moderna. Bastante própria, aliás.

    O livro não foi concebido como um estudo conjunto da obra literária do trio. Na verdade, trata-se da reunião de textos autônomos produzidos entre 2010 e 2014, encomendados por uma universidade alemã e revistas europeias. Apesar disso, o resultado é um ensaio homogêneo, que ignora a desigualdade entre Flaubert, Conrad e Virginia Woolf para colocar em foco o caráter nada aristotélico da literatura moderna, as narrativas erráticas e o confronto desses autores com a desproporção de suas obras, em particular Flaubert, que poderia ter escrito 75 mil páginas de Madame Bovary e ainda assim não saber como colocar um fim nessa história - característica da modernidade, de acordo com o filósofo.

    Os ensaios reunidos no livro, segundo Rancière, tentam pensar alguns paradoxos que fundam a ficção moderna, levando em consideração que Barthes, bem antes dele, já havia escrito um texto canônico (O Efeito do Real, 1968) sobre o confronto com o real, presente nas obras de cada um dos analisados. Barthes, por exemplo, foi pioneiro ao analisar a sobrecarga de elementos descritivos no conto Um Coração Simples, de Flaubert, sobre uma criada analfabeta (Felicité) que acumula perdas (inclusive da patroa, a senhora Aubain) e paixões infelizes, terminando seus dias numa casa vazia ao lado de um papagaio.

    Rancière, evocando Barthes, compara o drama existencial de Felicité ao barômetro disfuncional na casa da patroa, que não serve para nada. É preciso, então, encontrar uma utilidade para esse acessório inútil, observa o filósofo, mostrando como Flaubert, de modo inteligente, valoriza o real justamente por meio da presença de um objeto que não tem função nessa história - Sartre, que escreveu um estudo biográfico sobre ele (O Idiota da Família) dizia que Flaubert e os escritores de sua geração estavam empenhados em "coisificar tudo". Nem tudo, afinal.

    Virginia Woolf, autora de um manifesto que reivindicou os direitos da ficção moderna, criticou H.G. Wells, Arnold Benet e outros escritores, que classificou de "materialistas", justamente pelo apego ao trivial, mas não teve dúvidas ao abdicar do sujeito para eleger o cenário do mundo real como protagonista de Mrs. Dalloway, por exemplo. "Se, por um lado, Flaubert liquidava o tema da narração em um capítulo, Virginia Woolf, por outro lado, liquida em uma frase com essas manifestações da vontade que determinam, ordinariamente, o curso da ficção com as relações entre os personagens", observa Rancière, mostrando como o passeio de Mrs. Dalloway para comprar flores tira a protagonista do centro da ação e valoriza o ambiente mundano, destacando as vidas minúsculas que cruzam seu caminho.

    Trata-se, segundo Rancière, "de opor não o singular à totalidade, mas um modo de existência a outro". E é muito naturalmente uma totalidade difusa, acrescenta o filósofo. Ele afirma que Virginia Woolf não inventou o "halo luminoso" que envolvia os personagens da escritora - e a própria autora. Foi Joseph Conrad que criou esse halo luminoso não a serviço do centro, mas da periferia do mundo. Rancière, a propósito, observa que as histórias de Conrad sempre adotam um esquema fundamental, fruto da aparência, do equívoco e da ilusão. Lord Jim, resume ele, é o sonho individual de heroísmo. Coração das Trevas é o pesadelo da mentira civilizatória plantado pelo colonialismo. Para contá-la, Conrad "reintroduz a função do narrador" que Flaubert fez desaparecer.

    Isso não significa que Conrad soubesse onde colocar a palavra fim nos seus livros. Como numa sessão de free jazz, alguém tem sempre de agitar a bandeirinha para que os músicos parem de improvisar. A palavra final vem de Kurtz em Coração das Trevas: o horror. Mas esse não é o fim da saga de um "herói civilizador", um selvagem disposto a "exterminar todos os bárbaros". Esse fim é um artifício para concluir uma ficção interminável, conclui Rancière. É a maldição dos modernos.

    //alias.estadao.com.br/noticias/geral,filosofo-analisa-obra-de-virginia-woolf-joseph-conrad-e-flaubert,70001815044

    • Assunto: Filosofia
    • Autor: Rancière, Jacques
    • Coleção: Catálogo Geral > Dialética
    • Editora: Martins Fontes - selo Martins
    • Edição: 1
    • Encadernação: Brochura
    • Formato: 2,00 X 11,00 X 16,00
    • ISBN: 9788580633153
    • ISBN 13: 9788580633153
    • Páginas: 152

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